Origem

    Os indianos utilizavam em sua medicina, desde as raízes até as frutas das plantas. Foram eles que desenvolveram a técnica de cultivar plantas em vasos tornando possível seu transporte em caravanas, garantindo medicamentos frescos para os doentes.

    Através das influências religiosas como o taoísmo e o budismo, os indianos passaram para os chineses a técnica de cultivar árvores em bandejas. Isto pode ter ocorrido a quase dois mil anos atrás. Nesta época, os chineses contemplavam a montanha como um local de encontro com os deuses. Desta forma procuravam ter casa, algo que representasse as montanhas ou algo que havia nelas. Então começaram a recolher árvores naturalmente miniaturizadas das montanhas ou que lembrassem as árvores encontradas nas montanhas, ou seja, retorcidas, castigadas pela natureza e ao mesmo tempo fortes. Foi ai que surgiu o Bonsai, uma árvore miniaturizada, plantada num recipiente e aparentando ter sido castigada pela natureza.

    O Bonsai só entrou no Japão a cerca de 800 anos, influenciado pelo zen-budismo (fusão do taoísmo e o budismo), sendo que só a uns 400 anos que se começou a pratica de trabalhar a forma e aspecto das árvores e, também a miniaturização de exemplares não miniaturizados naturalmente. Com isso podemos dizer que o Bonsai como conhecemos hoje, tem 400 anos.

    No Brasil, o Bonsai começou com a imigração japonesa em 1909, tendo adquirido grande influência após a Segunda Guerra Mundial, e mais ainda na década de 80, por influências vindas dos Estados Unidos com os filmes Karatê Kid 1, 2 e 3.



A Arte e a Filosofia do Bonsai

Por: Fabian Kussakawa do Miagui Bonsai

A Arte e a Filosofia do Bonsai é criação única e exclusiva da Natureza. Antes dos primeiros observadores humanos, a Natureza vem recheando nossos caminhos de belíssimas árvores miniaturizadas. No Extremo Oriente, por razões filosóficas e religiosas, há maior contemplação do Mundo que nos cerca e maior meditação sobre os fenômenos naturais, por menores que sejam. Logicamente, teriam que ser monges budistas os primeiros a transportar para a habilidade humana, essa Arte tão fascinante. Parece-nos irrelevante, neste contexto, discutir quem primeiro fez esta transposição. Chineses e Japoneses devem ter chegado quase juntos na apreciação e execução da Arte. Embora raramente mencionados, os Coreanos também são precursores nesta transposição. Ao nosso ver, os Japoneses merecem o nosso reconhecimento por terem aberto ao mundo ocidental as técnicas da Arte, principalmente após a Segunda Grande Guerra, principalmente os Grandes Mestres Kyuzo Murata e Yuji Yoshimura.Ou seja, fizeram com que enxergássemos aquilo que diariamente não vemos, embora exemplares existam em abundância. No Rio de Janeiro, é comum árvores assumirem o formato "Semi-Cascata" nos taludes do canal do Mangue, no bairro do Maracanã, ou outras "Fustigadas-pelo-Vento" nas áreas mais descampadas perto da praia, na Barra da Tijuca ou no Recreio dos Bandeirantes. Estão lá, quase ninguém as vê individualmente e poucos as apreciam. Pela sistematização da Arte do Bonsai por povos orientais, ela traz consigo conotações das filosofias religiosas praticadas, há muito tempos, naquelas regiões.
Assim, surge, por exemplo, o conceito "Bonsai-do" A palavra do (pronuncia-se dô), em japonês e chinês significa direção, caminho, trajeto, como primeira acepção. A palavra é associada, ainda, a karate-do, ju-do, Aiki-do.Assim "Bonsai-do" significaria, ao pé da letra, direção, trajeto do Bonsai. Mas sua interpretação é mais profunda. Significa caminho para o interior do "EU", pela Arte do Bonsai, ou seja, circunspecção através da concentração mental ao se trabalhar um Bonsai. O Bonsai é, na realidade, a única Arte com quatro dimensões, comprimento, largura, altura e a própria Vida. Alguns colocam o Tempo como a quarta dimensão, uma vez que os Bonsais variam com ele. Todavia, o conceito de Tempo apenas tem significado quando há Vida. No livro "A vida secreta das plantas", de Peter Tompkins e Christopher Bird, experiências científicas mostram que as plantas reagem muito bem na presença de pessoas que normalmente cuidam delas e falam com elas, e muito mal com as que as maltratam, ou abusam delas sem razão de ser. Diz o livro que plantas, não lenhosas e, portanto flexíveis, chegam a direcionar seus ramos para as pessoas consideradas boas e a afastá-los das ruins. Tenho exemplares, que eu podo, utilizando práticas naturais (mas que, no sentido estrito da palavra, corto), que me propiciam beleza, flores e frutos, há mais de trinta anos. Será que elas entendem que eu estou somente fazendo o que elas fariam naturalmente ? Ainda sobre a especividade da Vida da plantas, amigo meu, paleontólogo, certa vez relatou que estudos científicos mostram, por instrumentos de medição física, a presença de vibrações (de vida ?) junto às árvores de florestas, em bosques, em gramados bem cuidados. Em face dessas evidências, precisamos nos concentrar e entender o que estamos fazendo para não levarmos à morte um exemplar vegetal, que teria, talvez, melhor sorte em outras mãos ou se fosse simplesmente plantada num jardim, no campo, numa fazenda. Estamos lidando com a Vida, quer estejamos trabalhando uma muda de árvore de baixo valor de troca ou um Bonsai de trinta anos, bastante valorizado. Assim posto, podemos dizer que "Bonsai-do" é uma terapia mental que praticamos através da Arte. Durante muito tempo, a Arte do Bonsai era praticada pelos Samurais, para amenizar o lado guerreiro, feroz, do seu ofício. Hoje, no Japão, o currículo dos policiais inclui alguma prática de Jardinagem, também por esse motivo. A concentração exigida pelo trabalho consciente com um Bonsai afasta, por um tempo, suas preocupações com outros problemas, que, muitas das vezes, se resolverão naturalmente com o seu trabalho e seu cuidado, sem angústia, porém. Inúmeras vezes, ao final de uma sessão de trabalho com Bonsais, afloraram à minha mente soluções para outros problemas, geradas pelo meu Subconsciente, enquanto o Consciente estava ocupado.
A Arte do Bonsai, como a Arte da Marcenaria (novamente as árvores), que exigem concentração no que vai ser feito, medição repetida do que pretendemos fazer e o uso das mãos conjugadas a um planejamento cerebral, pode se constituir uma alternativa de terapia ocupacional. Se cortarmos errada uma táboa de madeira, ou indevidamente um galho do seu Bonsai, somente através de artifícios grosseiros poderemos reaproveitá-los. Outro termo ligado à Arte do Bonsai é "Chizen ou Shizen". Significa harmonioso, natural. As artes orientais transmitem harmonia, naturalidade. O Bonsai e o Ike-bana são exemplos. A primeira trata de vegetais vivos, com raízes, a segunda de partes cortadas de vegetais, sem raízes. Ambas devem transmitir a sensação de harmonia, de equilíbrio e de naturalidade com o seu ambiente. Uma árvore nascida naturalmente na escarpa da montanha irá refletir de forma harmoniosa tal ambiente. Será elegantemente batida pelo vento, ou irá se recurvar à procura de umidade, que a rocha não lhe propicia, mas que irá encontrar no vapor, na névoa que sobe de uma riacho lá embaixo. Os estilos "Fustigado-pelo-Vento" e "Cascata" são exemplos típicos dessa situação. Observar um Bonsai bem feito, nesses estilos é se transportar para o alto da montanha. A naturalidade tem que levar em conta os fatores que favorecem ou não determinadas espécies de árvores e de arbustos. Por exemplo, o limitante da vida das árvores não é o calor e sim temperaturas geladas. À medida que se sai do vale e se sobe uma montanha fica visível que as espécies vão mudando, algumas vão se rarefazendo, havendo predominância de outras. Lá em embaixo, temos cerejeiras, caquizeiros, jaqueiras, macieiras, laranjeiras. No alto, temos os pinheiros, os cedros, os juníperos, as piceas, o Eldeweiss da Áustria e essa fenomenal espécie que são as Azáleas. Encontrei em viagens, quando mais jovem, dezenas de Azáleas sobrevivendo em altas altitudes, miniaturizadas pelo vento, pelo frio e pelo escasso nível de nutrição, mas que, tão logo começa o desgelo, nos brindam com sua exuberante floração. Algumas assumiam, nitidamente os Estilos "Cascata" debruçando-se sobre as escarpas. Toda essa beleza faz bem à Alma !Assim, se queremos preservar a naturalidade, fica difícil entender uma laranjeira estilo "Cascata". Pode ficar bonito, mas não é natural! Laranjeiras não sobrevivem ao frio do alto das montanhas, onde tal estilo pode ser encontrado. Hoje em dia usam-se práticas não naturais para se conseguir um Bonsai estonteante. Revistas e livros de Bonsai apresentam fotos de pessoas usando serras elétricas e desbastadores elétricos de madeira no trabalho de Bonsais. É errado ? Não sabemos. Mas não é natural. O que queremos ressaltar, usando termos orientais, é que Bonsai e Shizen (ou Chizen) se confundem. Assim, como o estilo "Cascata" (kengai) nos traz a magia das montanhas, também podemos usufruir a magia de um bosque, a magia de um árvore solitária, exuberante, nascida no meio de vale, ou a magia das árvores naturalmente retorcidas nos cerrados brasileiros. Para tratarmos nossas arvoretas visando tal harmonia, temos que estar harmônicos conosco. Antes de iniciar algum trabalho de Bonsai, procure a tranqüilidade, respire pausadamente e afaste outros pensamentos. Concentre-se no que vai fazer. A busca da harmonia interna é outro aspecto de terapia desta Arte Milenar. Lembre-se de que algo vivo precisa e depende do seus cuidados e do seu carinho.É comum, no Japão, dizer-se que um Bonsai é iniciado por alguém, cujo filho continuará o treinamento, para ser apreciado pelo neto. Se conseguirmos que nossos filhos e netos amem essa Arte e sejam hábeis no seu treinamento e apreciação, estaremos sempre perpetuados na memória deles. Seremos imortais, à medida que nossos Bonsais sejam apreciados ou cuidados por terceiros, com a lembrança de quem o iniciou. Façamos o máximo, para que tais lembranças sejam boas. Em resumo, o respeito pela Vida, a paciência em esperar que seus Bonsais respondam aos seus cuidados, a concentração quando for cuidar de cada um deles, a busca da harmonia interna através do contato com Bonsais, trarão a você, sem dúvida, melhores condições de paz interior, consigo mesmo e com seus semelhantes. Entendemos que profissionais devidamente habilitados para tal fim, podem e devem sistematizar um programa de terapia ocupacional com o auxílio da Arte do Bonsai, para a recuperação de pacientes. Os conceitos de Vida, Harmonia, Equilíbrio, Beleza e Naturalidade formam a essência de um trabalho desse tipo.